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Histórias

Harpia

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Harpia

A maior ave de rapina das Américas

Durante mais de cinco anos o fotógrafo João Marcos Rosa acompanhou uma equipe de pesquisadores da biodiversidade para registrar o desenvolvimento da maior ave das Américas, a Harpia (Harpia harpyja) também conhecida como gavião real.

“Foram dezenas de viagens para o Pará, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Bahia e Venezuela. Milhares de horas a pé, de avião, barco, canoa, carro, balsa, helicóptero. Assim como nas reportagens da National Geographic, que pregam uma imersão do fotógrafo no ambiente e no cotidiano da espécie -seja um urso polar ou uma formiga — João teve de tirar os pés do chão, literalmente. Aprendeu a escalar as árvores para chegar aos ninhos. Encarou um antigo medo de altura para enxergar a vida das harpias pelo ângulo delas: do alto.”
Trecho do texto de Ronaldo Ribeiro, Editor sênior da National Geographic Brasil, no livro Harpia.

O começo do sonho

[João Marcos Rosa] Ainda durante o projeto Fotos de Família, eu publiquei minhas primeiras matérias na National Geographic. Em uma dessas pautas eu conheci um cara que trabalhava com essa espécie, e como eu já tinha conseguido esse primeiro contato com a revista eu pensei: agora é a hora de propor algo maior.

Ele gostou da ideia, falou que poderia ajudar, mas eu tinha que me virar também. Então eu consegui ir pra uma expedição em outubro de 2004, só que voltei com um material muito de bastidores, não consegui de fato as fotos do animal. O editor gostou até, mas eu queria fazer mais material com foco na harpia.

Então um dos biólogos do grupo que era da Venezuela falou que lá conseguiria fazer o material. Consegui e o editor aceitou a matéria, mas demorou um ano até ela ser publicada, em fevereiro de 2006, nesse intervalo eu entrei pra Nitro.

“Foi um marco importante pra agência, nos trouxe muita visibilidade. E pra mim com 26 anos na época, ter uma matéria de 10 páginas publicada na National Geographic, foi um sonho.” João Marcos Rosa

Fotografia e natureza sempre lado a lado

[João Marcos Rosa] Minha história na fotografia veio pelo contato com meu avô, que já fotografava, e a natureza veio da minha vivência, fui criado muito mais próximo do mato do que da cidade.

Então fui vendo que gostava muito da área, e escolhi cursar jornalismo para usar a fotografia. Na faculdade era monitor do laboratório de fotografia, e já tentava emplacar minhas coisas de natureza.

“Depois da faculdade tive a oportunidade de ser assistente do Araquém de Alcantara. O cara era um herói. Considero que meu mestrado foi com ele, em campo, no dia a dia. Conversar, viver e respirar fotografia, foi um grande aprendizado.” João Marcos Rosa

Quando fui para o curso Abril, em São Paulo, me mantive nos editoriais de viagem e natureza. Até que em 2004, consegui publicar minha primeira matéria na National Geographic, era sobre bioluminescência no Parque Nacional das Emas, em Goiás. Depois disso, vi que estava no caminho certo e entrei de cabeça.

Mais páginas para contar essa história

[João Marcos Rosa] Mesmo depois de ter a matéria acertada para a National Geographic, continuei produzindo material. Participei de mais uma expedição, e quando foi publicada eu já estava com a ideia de fazer um livro. Ai coloquei o projeto em um edital, tentei captar, e como não consegui, o projeto ficou um pouco adormecido.

Mas como eu criei uma relação muito forte com os pesquisadores, continuei os acompanhado. Pra eles também foi muito positiva a publicação da matéria, além de eu ter liberado todas as fotos para uso deles em pesquisas, relatórios, etc. Até que em 2009 a coordenadora do projeto de conservação do gavião-real, me ligou e falou que eles estavam começando um projeto de pesquisa lá em Carajás com patrocínio da Vale do Rio Doce, e me convidaram pra acompanhá-los por uns dias. Eu aproveitei e eu levei o projeto do livro comigo.

Chegando lá, apresentei para um representante da Vale, ele adorou e conseguiu o patrocínio da empresa. Então passei o ano de 2009 todo produzindo o livro.

Reverências a “Rainha da Floresta”

[João Marcos Rosa] Além das fotos, convidei pesquisadores e profissionais das instituições de conservação para escrever alguns textos para o livro. Na verdade todos foram textos feitos a quatro mãos com o editor, que organizava o conteúdo de forma que não ficasse um texto científico. Eu não queria que fosse um livro de ciências, mas sim um livro de fotografia que falasse daquela espécie de outra maneira.

O chefe da Floresta Nacional de Carajás, Frederico D. Martins, escreveu sobre a importância de encontrar uma espécie dessas lá, sobretudo em atividade reprodutiva, pois é um grande indicador de conservação da área. Além disso, fala como trabalhos como esse ajudam na conscientização e preservação da espécie.

“Os registros visuais e as informações adquiridas a partir do monitoramento dos ninhos tem sido divulgadas em mostras científicas, semanas temáticas, palestras em escolas e trabalhos voltados para a comunidade, despertando a consciência dos vizinhos da floresta para a importância da preservação ambiental.” Frederico D. Martins

[João Marcos Rosa] Em seu texto a pesquisadora e coordenadora do programa de conservação do Gavião Real (como também a Harpia é conhecida), Tânia M. Sanaiotti, fala por outro lado da constante ameaça a espécie, com o presente avanço da fronteira agrícola para a Floresta Amazônica, e como a difusão de obras que valorizem a natureza podem reverter esse quadro.

“Pelo carisma de espécies como a harpia, considerada por alguns povos tradicionais como a rainha da floresta, pode-se formar uma grande rede em prol da manutenção da biodiversidade e do próprio homem, tão dependente deste planeta — como qualquer outra espécie.” Tânia M. Sanaiotti

E ainda o Roberto Azeredo, pesquisador e presidente da CRAX Brasil (Sociedade de Pesquisa do Manejo e da Reprodução da Fauna Silvestre), falou sobre o importante trabalho de reintrodução a vida silvestre, de indivíduos da espécie nascidos ou criados em cativeiro.

“Recentemente, um grande feito no Brasil quebrou diversos tabus e reaqueceu a discussão sobre o assunto. Pela primeira vez, uma harpia com mais de 10 anos em cativeiro foi solta e reintroduzida em seu habitat. […] Depois de estudos, um trabalho de reabilitação e acompanhamento que avaliaram o animal com apto a voltar a natureza, a águia alçou seus primeiros voos, na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Estação Veracel em Porto Seguro.” Roberto Azeredo

De observador a porta-voz da espécie

[João Marcos Rosa] A visibilidade que eu consegui dar pro animal até então pouco conhecido no Brasil, na época ainda da matéria, foi muito importante. E depois com o livro, várias revistas semanais, além das publicações especializadas em natureza, também deram a pauta, então alcançou um público muito bom. Além disso, depois do lançamento fui convidado para vários outros projetos até fora do país relacionado a aves.

“O livro me trouxe a realização de chegar no ápice de um projeto, mas que na verdade foi a conclusão de uma grande etapa, porque o trabalho nunca terá fim.” João Marcos Rosa

Foi uma dedicação muito grande, e isso deu consistência ao trabalho. Me traz repercussão até hoje, e de alguma forma acabei virando referencia em âmbito mundial no tema, em produção de imagens daquela espécie.

Agora estou pensando em fazer um documentário sobre o trabalho, mas também quero me dedicar a outros projetos, e gostaria que eles ganhassem o mesmo peso que o da harpia ganhou.

Confira o vídeo com imagens produzidas por João Marcos Rosa durante algumas viagens à Floresta Nacional de Carajás.